Cooperativismo de plataforma: quando os trabalhadores são os donos do app
Aqui no Brasil o cooperativismo de plataforma ainda engatinha, por isso, o Sistema OCB decidiu estimular o fortalecimento desse modelo, por meio de um curso totalmente voltado ao que há de mais moderno, vantajoso e possível para a realidade do nosso país
Foto: Acervo - SESCOOP/GO

Com a crise financeira americana de 2008 surgiu a necessidade de usar a tecnologia e transformar as relações de trocas de valor e gerar uma economia mais acessível e dinâmica. Logo surgiram plataformas como Uber, Lyft, Airbnb e outras. O Cooperativismo de Plataforma surge anos depois, em 2014, como resposta ao forte crescimento, efeitos e problemas dessas plataformas tradicionais.

O termo foi cunhado pelo professor Trebor Scholz, no livro “Cooperativismo de Plataforma - Contestando a economia do compartilhamento corporativa”. Ele propõe um modelo no qual exista uma mudança estrutural e significativa do conceito de propriedade na economia de compartilhamento, colocando a força de trabalho como proprietária das plataformas. Em outras palavras, é como se o Uber fosse dos motoristas.

Apesar do impacto positivo na redução de custos e eficiência no aproveitamento de capacidades ociosas, a economia do compartilhamento tem seus efeitos colaterais, especialmente na precarização da mão de obra, a chamada uberização do trabalho. E é justamente para corrigir essas distorções que surge o cooperativismo de plataforma, que propõe plataformas com propriedade e governança compartilhadas, em formato de cooperativas.

O cooperativismo de plataforma trata de solidariedade, que faz muita falta nessa economia baseada em força de trabalho distribuída e muitas vezes anônima. Plataformas podem ser possuídas e operadas por sindicatos inovadores, cidades e várias outras formas de cooperativas, desde cooperativas multissetoriais (multi-stakeholder co-op), cooperativas de propriedade dos trabalhadores (worker-owned co-op) ou plataformas cooperativas de propriedade dos “produsuários” (producer-owned platform cooperatives).

Segundo estudo da Co-operatives UK, as cooperativas de plataforma combinam os princípios do cooperativismo com as oportunidades de tecnologias de plataforma, conectando indivíduos diretamente com pouca necessidade de intermediários. Sendo que, o ponto central do cooperativismo é a crença em uma forma de negócio mais justa, em que todos os interessados possam trabalhar juntos para o bem comum.

Entre as vantagens econômicas e sociais que podem ser identificadas nas cooperativas estão:

  • Maior produtividade devido ao maior envolvimento dos trabalhadores com sua organização, com níveis mais fortes de confiança e compartilhamento de conhecimento mais eficaz.
  • Os números mostram que as cooperativas têm quase duas vezes mais chances de sobreviver nos primeiros cinco anos quando comparadas às empresas tradicionais.
  • As cooperativas demonstraram ter níveis mais baixos de rotatividade, menor desigualdade salarial e menores taxas de absenteísmo em comparação com empresas tradicionais.

Desafios e conclusão

É possível afirmar que o cooperativismo de plataforma - como movimento e modelo de negócio - tem ainda grandes desafios pela frente e avança pouco a pouco. Mas é inegável a necessidade de questionarmos o atual modelo das plataformas digitais e propor o cooperativismo de plataforma como solução. Afinal, por que não vemos o surgimento de “startups cooperativas”?

Um desafio, por exemplo, é a questão do financiamento à criação de plataformas cooperativas. Conforme explica o advogado e diretor-geral da Escoop, Mário de Conto, as cooperativas de plataformas ainda precisam achar uma forma de conseguir financiamento, já que a legislação brasileira não permite sócios-investidores.

“Não são permitidos sócio-investidores que só participam do negócio como investidores, buscando um retorno financeiro. A legislação não permite ter um sócio meramente investidor, mas permite, por exemplo, a criação de uma empresa subsidiária, da qual a cooperativa pode ser sócia”, explica.

Curso

Quer aprender mais sobre as cooperativas de plataforma? O Sistema OCB disponibiliza o curso Cooperativismo de Plataforma que pode ser acessado na maior plataforma de formação profissional do cooperativismo brasileiro – a Capacitacoop. O curso é gratuito e pode ser feito por todos os interessados em transformar a realidade de sua cooperativa de origem, utilizando, para isso, tudo o que já é uma tendência ao redor do mundo.

Aqui no Brasil o cooperativismo de plataforma ainda engatinha, por isso, o Sistema OCB decidiu estimular o fortalecimento desse modelo, por meio de um curso totalmente voltado ao que há de mais moderno, vantajoso e possível para a realidade do nosso país.

O curso será ministrado pelo professor e diretor da Escoop, Mario de Conto e a ideia é preparar as cooperativas para atuarem com mais força e resultados nesse mundo dos aplicativos e plataformas.

Segundo o professor, o objetivo é apresentar a economia de plataforma, as profundas transformações que ela vem acarretando e propor – por meio do cooperativismo de plataforma – um modelo em que a propriedade e a gestão da plataforma é de seus usuários. “Faremos isso por meio da apresentação de conceitos e, também, de práticas mapeadas em diversos países. Queremos, ao final, apresentar ferramentas que auxiliem as coops já constituídas e grupos interessados a estabelecer plataformas estruturadas sob os princípios do cooperativismo”, explica Mário de Conto.

Para isso, o curso está estruturado em quatro módulos:

Módulo 1: Capitalismo de Plataforma: Aborda as transformações do capitalismo, o surgimento da economia de plataforma e seus aspectos (criação de valor e efeitos de rede) e, também, como essa estratégia pode ser incorporada pelas coops. Apresenta, ainda, a tática das plataformas, provocando a reflexão a respeito das estratégias que podem ser adotadas. Utilizam-se exemplos de empresas brasileiras que utilizam a estratégia de plataformização.

Módulo 2: Cooperativismo de Plataforma: Contextualiza o cooperativismo de plataforma. Apresenta conceituação e classificações. Aborda a Legislação brasileira no que diz respeito às formas de financiamento, governança digital, escala e cooperativa multistakeholder.

Módulo 3: Cases de cooperativas de plataformas: Apresentação de cases de Cooperativas de Plataforma e sua contextualização segundo o Direito brasileiro, apontando desafios e oportunidades. Cases: Stocksy, Mensakas, Coopcycle, UpandGo e Fairbnb.

Módulo Extra: Geração de Modelo de Negócios: Aborda as possibilidades de elaboração de modelo de negócios considerando a natureza e os princípios das organizações cooperativas e as características dos negócios de plataforma. Apresenta a ferramenta de geração de modelo de negócios customizada para proposição de cooperativas de plataforma.

Acesse o curso por aqui

(com informações de Inovacoop e Sistema OCB)

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